Era madrugada. A gente estava no meio de uma noturna interminável. Alguém da equipe chegou perto de mim, com aquela cara de quem passou dos limites, e falou:
“Rha, estou morto. Pega meu lugar, por favor.”
Eu falei: claro, óbvio.c
E fui.
O dia do cachorro-quente
Uma noite antes, a gente tinha gravado numa barraquinha de cachorro-quente no Boqueirão. A equipe comeu ali, era o que tinha. Não sei se foi o horário, se foi alguma coisa mal lavada, se foi o cansaço acumulado. Só sei que no dia seguinte metade do QG acordou passando mal.
E o dia seguinte era diurna, externa, sol o dia inteiro.
O Tidão, nosso assistente de câmera, acordou podre. Eu fui uma das poucas que escapou. Então assumi o foco. Um dia inteiro no sol pegando foco em cada take, no gás, enquanto os outros iam se revezando entre descansar um pouco no QG e tentar voltar.
Curiosidade que eu guardei dessa época: as cenas de ação, que pareciam as mais complicadas, a gente acertava em dois takes. Os diálogos mais “simples”, daqueles que parecem fáceis de fazer, às vezes passavam de vinte. Simplicidade em cinema engana.
Eu na claquete. Eu na câmera. Eu no foco.
A gente era uma equipe mínima. Isso significa que ninguém ali ocupava só uma função. Todo mundo fazia três coisas. Eu estava na produção, mas também na claquete, no foco, operando câmera em alguns momentos. O Lucas dirigia, atuava, e quando o Edu Ribeiro, nosso diretor de fotografia, ficava fisicamente exausto, o Lucas ia lá e operava a câmera.
Isso não é uma confissão de precariedade. É o modo de operação. Equipe pequena, orçamento próprio, cronograma apertado, tudo pelo filme. A gente já sabia que ia ser assim desde antes de chegar em Curitiba.
E aqui vai uma coisa que vale para qualquer pessoa que seja dona do seu próprio projeto, seja cinema ou não: saiba fazer o máximo de coisas com suas próprias mãos. Não seja cem por cento dependente da equipe. Não por arrogância, pelo contrário. Saber executar libera você. Você não entra em desespero quando alguém falta, quando alguém cai, quando força maior acontece. Você senta a bunda e faz.
E tem outra coisa. Eu achava que a equipe talvez se sentisse substituível por nós cobrirmos funções. Era o oposto. A equipe ficava mais tranquila sabendo que, se alguém caísse, a produção continuava. Ninguém precisava se matar por culpa. O sistema aguentava.
O corpo paga o preço
O Coração de Neon foi rodado no meio da primavera curitibana, que em Curitiba não é uma categoria estável. De dia, sol de rachar. De madrugada, frio de cidade serrana.
Teve dia de sol derrubando pressão. Gente sentando encostada no muro para não desmaiar. A gente levava garrafão de água para o set, fazia pausa na sombra do caminhão do Miltão, empurrava suco e Red Bull para quem ia voltar à cena.
E teve noite de frio que rachava. O Lucas pegou um resfriado logo numa cena noturna de diálogo interminável entre o Fernando e a Andressa. Daqueles diálogos que não acabam mais. A gente estava na locação gelada que era a casa do Fernando, os dois personagens comendo uma pizza fria, e o Lucas rouco, sem voz. Por sorte, o Fernando naquela cena estava doente também, então deu para incorporar.
Mas gravar aquilo foi sofrido. A cena era longa. Cada take demorava. A equipe inteira em volta, enrolada em cobertor, sentada nas cadeirinhas de praia que a gente tinha comprado no início das gravações. O sol começou a nascer e a cena ainda não tinha acabado.
E, no final, ela nem entrou no corte final.
Rindo para não chorar. Às vezes é isso.
A frase
Quando o projeto é teu, não existe cansei. Não existe estou doente. Não existe já deu.
Você vai, e vai, e vai, até acabar.


































Amanheceu
Em várias noturnas, aconteceu a mesma coisa.
A gente ainda estava no meio de uma sequência, faltavam takes, faltavam ângulos, faltava tudo. E de repente, os passarinhos começavam a cantar.
Os passarinhos cantando de madrugada é uma coisa bonita no geral. Para quem está rodando cinema de guerrilha, é terror. Significa que o sol vem aí. Significa que a luz vai virar. Significa que a cena noturna não vai mais ser noturna.
O desespero era coletivo. Lascou, tá amanhecendo.
E aí o Lucas pegava a câmera. Eu pegava o foco.
Vamo’bora. Ainda dá tempo.