Os seis aparatos que a equipe do Coração de Neon desenhou na própria produção
Numa das cenas do filme, o personagem do Gomes caminha, a câmera está bem próxima do seu rosto, acompanhando cada movimento seu, bem de perto, mais perto que o normal. Enquanto ele se move, e o mundo se move ao redor dele, seu rosto fica congelado no centro. A sensação é de estranheza. De tensão. Você olha para o vilão e algo no corpo responde antes que a cabeça entenda.
Aquela imagem não existia. Quero dizer, aquela maneira de filmar o rosto de um ator a poucos centímetros, com a câmera presa ao corpo dele, com a lente certa para criar aquela estranheza, não tinha equipamento pronto na prateleira. O Lucas quis a imagem. A equipe desenhou o aparato. A cena foi filmada.
Essa é a história de seis vezes em que isso aconteceu.
O problema vem primeiro
Em todo set, a câmera precisa estar em um lugar específico para que a cena faça sentido. Em produções grandes, esse lugar quase sempre coincide com algum equipamento que alguém já fabricou e que está disponível para aluguel. No Coração de Neon, isso aconteceu poucas vezes. A maior parte das cenas pediu que a câmera estivesse em um lugar que nenhum equipamento de prateleira alcançava.
A equipe de maquinária e elétrica desenhou seis aparatos principais ao longo da produção. Cada um nasceu de uma cena específica e respondeu a uma necessidade própria. Cada um foi estudado, projetado, testado e refeito até chegar ao ponto certo. E cada um, no fim, ganhou nome, história e gente rindo por trás.
Os seis aparatos
1- O rig do vilão
O primeiro é o rig do peito do Gomes. Uma câmera fixada num suporte colado ao tronco do ator. A lente acompanha o rosto dele a poucos centímetros, distorcendo levemente a imagem. O Lucas queria uma sensação estranha, focada na expressão do vilão, para que o espectador sentisse o desconforto antes de racionalizar a cena. É a imagem que abre este texto. Funcionou.







2- Em cima do carro
O segundo é o aparato de capô. Um suporte montado sobre a frente do Boquelove, que segurava a câmera apontando para dentro do carro pelo para-brisa. O Edu, nosso diretor de fotografia, queria enquadrar os dois atores ao mesmo tempo, de frente, sem precisar trocar de plano entre motorista e passageiro. Pouca gente consegue essa imagem dos dois personagens juntos pelo vidro sem que ela pareça montada. A gente conseguiu.
O mesmo aparato depois foi usado nas viaturas da polícia. Em dia de sol, precisava de pano preto por cima para controlar o reflexo. Quem estivesse de plantão ficava embaixo do pano, segurando firme.







3- Toda noite é noite de lua cheia
O terceiro é a lua. Uma luz difusa enorme, montada em cima do caminhãozinho do Miltão, pai do Lucas, capaz de iluminar uma cena de qualquer ângulo. Desenhada pela nossa equipe especificamente para as noturnas. Em vez de depender de poste de rua ou de negociar instalação de iluminação em cada locação, a gente levava a nossa própria. A lua andava junto com a gente. Quem costurou o tecido difusor que dá à luz aquela textura suave foi a mãe da Mari, nossa diretora de arte. A mãe da Mari assumiu a costura com o mesmo cuidado que a Mari assumia a direção de arte.









4- Caminhão, a estrela do show
O quarto é o próprio caminhãozinho, que virou aparato em si. O caminhão do Miltão ganhou uma plataforma construída sob medida na frente para acomodar câmera, áudio e dois operadores protegidos pela estrutura. O Edu e o Microchip, nosso captador de som direto, iam ali, enquadrando e captando som enquanto o caminhão se deslocava pelas ruas do Boqueirão, acompanhando o Boquelove em movimento. A plataforma transformou o caminhão de entrega de mármore do Miltão num veículo de cinema capaz de seguir cenas inteiras em deslocamento.
















5- Todo herói usa capa
O quinto não é exatamente rig, mas entra como traquitana. Em Curitiba chove muito, e em algumas cenas chovia ainda mais, porque usamos caminhão pipa para simular chuva forte. O Edu, diretor de fotografia, criou junto com os meninos da equipe uma capa de chuva sob medida para proteger ele e a câmera durante essas cenas. Não era guarda-chuva improvisado nem plástico jogado em cima do equipamento. Era um acessório desenhado para o filme, costurado para encaixar exatamente onde precisava encaixar, deixando a lente livre e o resto seco. O Edu filmou debaixo de chuva real e chuva artificial sem que uma gota chegasse onde não devia chegar.
Tinha também a capa preta, esse sim sem maiores pretensões, era um pano jogado em cima do foquista quando o sol estourava a imagem do monitor em cenas externas. O Ícaro, nosso best boy, puxava o foquista coberto pela rua conforme a cena se deslocava. Algumas vezes quem estava debaixo do pano era eu. Imagino o que os moradores do Boqueirão pensaram ao ver uma figura preta sendo arrastada pelo asfalto em plena tarde.






6- O mesmo caminhão, mas agora de guerra
O sexto foi o mais ambicioso. A equipe pegou uma lona de caminhão, costurou ela inteira, e transformou a carroceria do caminhãozinho numa cabana fechada. Uma janelinha só, atrás, para a lente da câmera sair. Parecia um caminhão de guerra. Precisávamos daquilo porque os atores iam atirar fogos de artifício na direção da câmera em uma das cenas. A equipe técnica ficava lá dentro, protegida pela lona, enquanto os fogos explodiam na rua. Como foi dentro daquela cabana é história para outro post.



Quem desenhou
Eu assisto esses vídeos hoje e reconheço a competência técnica em cada um dos aparatos. Nenhum deles existia antes. Foram desenhados, calculados, testados e aperfeiçoados dentro da nossa própria produção por profissionais que estudaram cinema a vida inteira. O Edu, o Ícaro, o Miltão, todos trabalhando com serralheiro, metal, lona, parafuso, pensamento e método. A mãe da Mari entrou junto quando precisava de mais braços. A família entrava junto quando precisava.
A maquinária do Coração de Neon foi feita sob medida, do zero, porque era o que o filme pedia e nenhuma prateleira de equipamento iria entregar.
O detalhe que ninguém vê
Teve também um detalhe que passou despercebido para a maioria dos leigos mas me importou muito enquanto produtora: as armas. O Coração de Neon tem várias cenas com arma de fogo, e por questões de segurança e legalidade eu contratei um policial de reserva especializado em acompanhar filmagens. Ele tinha porte, fazia o treinamento com os atores no set, como segurar, como engatilhar, como conduzir, e levava balas de festim caso alguma cena exigisse o disparo.
Detalhe que ninguém vê no filme e que decidia se a gente ia ou não ter problema com a lei durante semanas.


Um caminhão, seis invenções
Cada rig e cada traquitana nasceu do mesmo método. A necessidade aparecia. Alguém sentava, projetava, calculava, desenhava. A solução voltava pronta. A gente testava, ajustava, seguia filmando.
E toda vez que o aparato funcionava exatamente como tinha sido pensado, sobrava aquele orgulho discreto de quem sabe que fez direito.
No fim do dia, era hora de desmontar tudo. A lua descia do teto. A plataforma saía da frente. A lona era dobrada e guardada na carroceria. O caminhãozinho do Miltão voltava a ser caminhão de marmoraria, estacionado em frente ao QG, esperando. No outro dia cedo, enquanto os pássaros começavam a cantar, a equipe voltava a trabalhar, e o caminhão virava aparato de novo.