Como o Coração de Neon ganhou corpo

Este post contém spoilers do filme Coração de Neon. Se você ainda não assistiu, recomendamos assistir antes de ler.

Em 2018, eu e o Lucas decidimos que íamos fazer nosso primeiro longa-metragem. Sem edital, sem investidor externo, sem lei de incentivo. Do nosso próprio bolso, com o dinheiro que a gente ganhava com a produtora em Miami. A decisão estava tomada. O que faltava era fazer o filme existir.

E existir começava pelo roteiro.

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Se você não conhece o Coração de Neon ainda, aproveita para assistir ao trailer.

A história que mudou de país

A ideia original era contar a história do Fernando já nos Estados Unidos. Ele já teria perdido o pai, já estaria morando em Miami, dividindo casa com dois irmãos bolivianos e se metendo numa série de enrascadas por causa do carro de mensagem. O filme seria em três línguas: português, inglês e espanhol.

O Lucas começou a escrever. Enquanto ele escrevia, eu lia, dava feedback, e a gente ia conversando sobre a história juntos. Foi um processo de quase um ano. Não era a única coisa que a gente fazia, claro. A gente seguia atendendo clientes, pagando as contas, vivendo a vida em Miami. Mas o roteiro ia crescendo em paralelo, no ritmo que dava.

A gente tinha uma prática que eu considero muito importante: expor a ideia para outras pessoas. Mesmo embrionária, mesmo crua. O Lucas gosta de mandar first drafts para colegas, de sentar com amigos e contar a história, de testar como as pessoas reagem. Miami é perfeita para isso porque é muito plural. A gente conversava com gente de vários países, de várias áreas, e cada pessoa trazia uma compreensão diferente. No fim, você faz a sua visão. Mas é valioso sentir como ela chega nos outros.

Foi nesse processo que a Alessandra Geraldi entrou. Ela é roteirista, faz consultoria de roteiro, e o trabalho dela foi essencial para o Coração de Neon. Quando ela leu o que o Lucas tinha escrito, trouxe um ponto que mudou tudo: o Fernando tem um background rico demais para não ser contado. A história dele não deveria começar nos Estados Unidos. Deveria começar no Brasil, lá atrás, com o pai, com o carro, com a origem de tudo.

A gente gostou. Concordou. E ao mesmo tempo, tinha uma questão prática. Produzir um longa em Miami como estrangeiros, num primeiro filme, significava lidar com sindicatos de atores, permissões, burocracias que a gente não dominava. Além disso, o orçamento que a gente tinha, quando convertido para real, valia muito mais no Brasil do que valeria nos Estados Unidos.

A decisão de filmar no Brasil veio de dois lugares ao mesmo tempo: o desejo narrativo e a inteligência de produção. Entender a sua realidade para contar a melhor história dentro dela. Isso não é fazer um filme fraco. É usar a cabeça para fazer o melhor filme possível com o que você tem.

O ator que ninguém reconhecia

Desde o começo, estava decidido que o Lucas seria o protagonista. A gente conversava sobre isso e a conclusão era sempre a mesma: não tinha por que ele não se dar essa oportunidade. A gente estava literalmente abrindo a porta para si mesmos. Ele podia escrever um personagem que ele tivesse vontade de viver, de se desafiar, de habitar.

Mas o Fernando era mais novo. Uns cinco a oito anos mais novo. O Fernando tinha vinte e poucos, o Lucas estava fazendo vinte e oito. Então começou um processo de transformação física que durou o mesmo tempo que o roteiro.

O Lucas emagreceu bastante para aparentar mais jovem e dar um ar de inocência ao personagem. Deixou o cabelo crescer por um ano e meio para depois colocar mega hair e ficar natural, no comprimento do ombro. A gente mandou fazer um aparelho ortodôntico fixo que era removível, para ele usar nas gravações. Tudo para construir esse Fernando meio bobo, meio inocente, com cabelo comprido e sorriso de menino.

Funcionou. Nas premières, as pessoas perguntavam para o Lucas, enquanto diretor, se o ator que fez o protagonista viria. Não reconheciam que era ele.

Sair de Miami

A decisão de voltar para o Brasil criou uma tensão entre a gente que eu não esperava.

O Lucas estava decidido, firme, ansioso para ir. Na cabeça dele a decisão já estava tomada e ele queria que acontecesse o quanto antes. Mudança para ele é leve. Ele não tem apego com lugar.

Eu não queria ir.

Eu chorava de frustração. Hoje olho para trás e acho talvez um pouco exagerado, mas foi como eu lidei com essa emoção na época. Eu era mais jovem. Eu estava vivendo um momento muito feliz, muito realizada. E eu tinha uma intuição que me dizia: se a gente sair daqui, não volta mais.

E foi o que aconteceu. Claro que mil variáveis mudaram o rumo da história, inclusive coisas que não estavam sob nossa decisão, como a pandemia. Mas eu sou uma pessoa sensível e intuitiva. Eu sabia.

O Lucas também não queria me deixar triste. Não queria que eu desistisse de algo que me fazia feliz. Então esse tema rendeu muitas conversas entre nós. Porque os dois queriam o filme. Os dois queriam realizar esse sonho. Só que eu estava dividida. E ele respeitava isso.

Duas pessoas, um filme inteiro

Quando a decisão se consolidou, eu já estava com as mãos na massa. Naturalmente fui assumindo a produção geral. Considerei outras funções, mas produção é o que eu faço. É onde eu funciono.

E comecei tudo de Miami. A distância. Meses antes de pisar no Brasil.

Casting por vídeo. A gente soltou chamadas nas redes do IHC e contou com a ajuda do Humberto Gomes, amigo nosso e diretor de teatro, que tem bastante contato com atores em Curitiba. A galera mandava vídeos interpretando cenas do roteiro. Alguns papéis mais difíceis que outros, mas funcionou.

Eu fiz a logística inteira na unha. Planilha orçamentária, produção de objeto junto com a Mariana Pires (que seria nossa diretora de arte), figurino em brechó para conseguir o máximo de coisa emprestada ou doada. Tudo pré-inteligência artificial. Era uma loucura, mas a gente aprendeu fazendo.

E fui atrás dos apoios. A gente precisava da Polícia Militar do Paraná para cenas do filme. O Lucas queria polícia de verdade, não atores de farda. Eu passei meses fazendo abordagens diárias, por telefone, videocall e email, até conseguir. Nunca na história do Paraná esse tipo de apoio tinha sido concedido a uma produção de cinema.

A mesma coisa com a Urbs e os ônibus de linha de Curitiba. O Lucas queria gravar no Terminal do Boqueirão, de verdade, com ônibus de verdade. Também nunca tinha sido feito. Também consegui. Aeroporto e diversas outras locações. Eu ia conquistando os apoios um a um enquanto o Lucas ficava em cima do elenco.

Furacão, goldens e o nome que ficou

A mudança foi se aproximando e a gente precisava organizar a logística. Estávamos com três golden retrievers (Brad Pitt, Penélope Cruz e o filhote Javier Bardem), mudança inteira, equipamentos de cinema e computadores.

Chamamos dois amigos de Curitiba para nos ajudar: a Mariana Pires e o Victor Microchip, amigo das antigas, pau para toda obra. Os dois depois trabalharam no Coração de Neon, ela como diretora de arte, ele como captador de som direto e na pós-produção. Eles são parceiros de longa data, personagens recorrentes na história do IHC.

A gente comprou a passagem para eles. Também era uma oportunidade de curtir uns dias juntos antes da loucura que viria. Eles estavam no avião a caminho de Miami quando veio o aviso: furacão se aproximando da Flórida.

Era nossa primeira experiência com furacão. A gente ficou com medo. Decidimos evacuar.

Quatro adultos, três goldens, todos os equipamentos e computadores dentro de um jipe. Mais um galão de gasolina e comida. Quinze horas de estrada até a Louisiana, que era o primeiro lugar fora da zona de risco.

A viagem caótica virou diversão. Pegamos um Airbnb em New Orleans que aceitava pets por causa da emergência, uma casa gostosa e acolhedora. Estava rolando uma parada gay na cidade, a gente foi, assistiu jazz na rua, andou por barzinhos e cafés. Ficamos uns quatro, cinco dias. Na volta, paramos em Orlando para levar a Mari e o Victor na Disney, que os dois nunca tinham ido. E calhou de ser Halloween. A Disney à noite, cheia de luz negra e neon.

Neon

O primeiro título provisório do filme era "The Message Car". A gente logo percebeu que não ia funcionar: o carro de mensagem é um elemento puramente brasileiro. Não existe em nenhum outro país. Quando você fala "message car" para alguém de fora, a pessoa não tem referência nenhuma. Alguns amigos acharam que era um filme religioso.

A gente testou vários nomes ao longo dos meses. Nenhum grudava. Até que, no meio dessa viagem com a Mari e o Victor, fazendo brainstorm, a gente chegou. Coração já era quase óbvio pela história de amor e pelo carro de mensagem. E o neon estava em tudo: nas luzes do carro que a Mari já estava desenhando, nas locações da história, na Disney banhada de luz negra naquela noite de Halloween. Um elemento luminoso e frágil. A gente achou bonito o símbolo.

Digitamos "Coração de Neon" no Google para ver se já existia algum filme com esse nome. Não existia. Mas existia uma música, de uma rapper de Brasília chamada Bela Dona. A música fala sobre carros, encontros, estrada. A gente escutou e achou que era um sinal. Entramos em contato, convidamos ela para participar da trilha sonora, e ela topou na hora. A música virou o tema do filme.

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Essa é a música original "Coração de Neon" da BellaDona, e esse é o vídeo clipe que gravamos com ela em 2022.

A câmera na mochila

Os equipamentos de cinema tinham sido comprados em Miami e precisavam ir para o Brasil. A Mari e o Microchip ficaram responsáveis por levar os cachorros de avião para Curitiba. Nós ficamos com as malas e os equipamentos. Esse era um dos motivos da viagem deles, afinal.

Quem tem amigos, tem tudo!
Quem tem amigos, tem tudo!

A gente decidiu vir pelo Uruguai, de ônibus, cruzando a fronteira pelo Chuí. Uma decisão que eu acho que a gente só tomou porque era jovem e corajoso. Hoje eu não faria de novo.

Mas antes da fronteira, vieram os dias mais bonitos da viagem.

Pouquinha bagagem.
Pouquinha bagagem.

Cabo Polônio

A gente passou por Montevidéu e por Atlántida, onde temos uma grande amiga, a Camila, que mora lá com a família. Foi ela que nos falou do Cabo Polônio e nos levou até lá.

Cabo Polônio quase não tem eletricidade. Quase não tem Wi-Fi. Por sorte, a pousada da Carmela tinha chuveiro quente, porque era saída de inverno e fazia frio. A Carmela é uma senhora que te recebe como se você estivesse chegando na casa dela. Cozinha para você, serve vinho, cuida de tudo.

O Lucas levou o violão. A gente ficava na varanda, com coberta, no sol de inverno, ele tocando, eu ouvindo. A gente comeu as comidinhas uruguaias, subiu o farol, viu os leões marinhos, viu o plâncton brilhando na água à noite.

Calhou do meu aniversário ser ali. Passei no Cabo Polônio.

Foram poucos dias que pareceram semanas. Eu acho que a gente precisava daquele silêncio antes do barulho que viria.

Curitiba

De Montevidéu pegamos o ônibus para Porto Alegre, cruzando a fronteira pelo Chuí na madrugada. De Porto Alegre, voamos para Curitiba.

Chegamos e fomos recebidos pelos nossos pais, como sempre, com muito amor. Ficamos na casa dos meus pais primeiro, porque eles têm um sótão grande. A gente montou nosso primeiro QG ali. Subimos os computadores, montamos as mesas, e começamos a receber a equipe para as reuniões.

Meu pai tem uma mesa de ping pong. A gente levantou ela e usou de quadro. E as paredes também. Mais de cem páginas de roteiro penduradas, espalhadas, cheias de anotações e post-its coloridos. Marcações de direção de arte, fotografia, atuação, direção, produção. Cada departamento com sua cor.

Era físico. Na unha. O roteiro inteiro saiu do papel para o mundo ali, naquele sótão, com a equipe espremida em volta de uma mesa de ping pong erguida.

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Nesse episódio dos "Bastidores da Pré-Produção de Coração de Neon" você pode ver um pouco dessas cenas no sótão da casa.

Contar essa história me emociona. Duas pessoas que largaram uma vida que amavam, cruzaram um continente de ônibus e montaram a pré-produção de um filme inteiro no sótão da casa dos pais. Em algum momento, o sonho parou de ser conversa e virou compromisso. E a gente parou de esperar a oportunidade certa e decidiu criar ela.

Eu, Javier e Lucas dando o último rolê em Miami antes de largar tudo para fazer o que seria o maior projeto das nossas vidas até aquele momento: Coração de Neon. (25 de setembro de 2019)
Eu, Javier e Lucas dando o último rolê em Miami antes de largar tudo para fazer o que seria o maior projeto das nossas vidas até aquele momento: Coração de Neon. (25 de setembro de 2019)