Como o Coração de Neon começou

Uma das primeiras vezes que saí com o Lucas, lá em 2014, ele falou uma coisa que ficou grudada na minha cabeça:

"Um dia eu quero contar uma história que tenha um carro de mensagem de amor como protagonista. Um elemento extremamente visual."

Dizendo sim a uma ideia que eu achei brega

Confesso que na hora eu pensei: nossa, que brega. Eu tinha 23 anos e entendia muito pouco da visão que ele tinha. Foi só mais para frente, conforme ele foi me contando mais, como aquilo era visual, brasileiro, autêntico, que eu fui entendendo. E acredito que todo mundo tem essa mesma reação inicial quando ouve "carro de mensagem de amor". Torce o nariz.

É justamente por isso que a visão do Lucas é tão especial. Ele olhou para um elemento que todo mundo descarta e enxergou algo que dá vontade de fazer parte. Essa é a magia dele enquanto criador.

Na época, aquilo soou como mais um sonho bonito de cineasta. E sonho de cineasta no Brasil tem um problema: quase sempre morre na gaveta.

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Caso você não tenha assistido ao trailer ainda, aproveita para ver já!

O sonho que não cabia no orçamento

O IHC nasceu em 2012. O Lucas fundou a produtora em Curitiba com uma câmera e zero orçamento. Em 2015 eu entrei como sócia. Desde o começo, o sonho era o mesmo: fazer cinema. Contar histórias. Longa-metragem, tela grande, a coisa toda.

Mas fazer cinema independente no Brasil é caro, burocrático e difícil de viabilizar. Editais, leis de incentivo, captação com empresas. A gente tentou. Eu fiquei responsável pela parte burocrática: participei de grants, de editais, tentei enquadrar nossos projetos em lei do audiovisual, passei tardes preenchendo formulário e montando documentação.

Enquanto isso, o Lucas fazia o que sempre fez: centenas de reuniões, abordagens, tentando viabilizar e captar de todo jeito possível. Sempre foi assim entre nós. Eu na estrutura, ele na rua.

Nós dois em 2015 no nosso primeiro estúdio em Curitiba.
Nós dois em 2015 no nosso primeiro estúdio em Curitiba.

Nunca conseguimos por essa via. Mas a gente nunca parou. Isso não é da nossa natureza.

Nesse meio tempo, o IHC fez dezenas de projetos. Documentários, projetos culturais, trabalhos comerciais. O início da empresa, o início da vida a dois, foi super movimentado. Também foram anos intensos financeiramente. Tudo que a gente conquistou antes de Miami veio do esforço bruto, sem rede, sem colchão. A nossa vida sempre foi agitadíssima. Só não tinha um longa ainda.

E a gente tinha 27 anos. Parecia que estava demorando, mas é porque somos ansiosos e queremos tudo para ontem. Na real, estava dentro do normal. Se a gente tivesse esperado mais alguns anos, provavelmente teria conseguido por edital também. Mas esperar nunca foi o nosso forte.

A gente viu que a rota tradicional estava difícil e decidiu mudar o caminho. Se o sonho é esse, a gente acha outro jeito de chegar lá.

Até que em 2017 abrimos a produtora nos Estados Unidos e nos mudamos para Miami.

Miami

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O IHC começou a ir muito bem lá fora. A gente atendia governo, prefeitura, fundações. Para dois jovens de 27 anos, era bastante dinheiro. E Miami nos tratava bem. O país é amigável para quem empreende, e isso combinava demais com o jeito do Lucas. As ideias dele, os planos, a energia. Tudo era bem recebido.

Eu estava realizando um sonho antigo. Sempre quis morar fora. E ali eu estava: na minha área, executando minha profissão, ganhando a vida com o que eu sabia fazer. Pela primeira vez na vida eu me senti respeitada como profissional. Não sei se era a cultura americana, se eu estava me posicionando diferente, ou se era simplesmente estar num lugar novo onde ninguém tinha uma ideia pré-formada sobre quem eu era. Só sei que eu me senti vista. E isso me fez muito bem.

A vida era boa de verdade. A gente morava com nossos três golden retrievers, levava eles para o escritório, e no fim do dia saía para tomar açaí, ou ia num barzinho, ou jantava fora. Tinha amigo que chamava para andar de barco, festa, evento. A gente era anfitrião de jantares em casa. Era uma vida socialmente muito movimentada. E ao mesmo tempo tinha espaço para as coisas simples.

Todo sábado a gente ia no Yellow Green Market, em Hollywood. Nosso passeio preferido. Tomava suco, comia, comprava um monte de coisinha gostosa para trazer para casa. Passava o resto do dia no sofá, assistindo TV, abraçado com os cachorros, comendo tudo que tinha comprado. A gente andava de bicicleta para todo lado. Ia para reunião de bicicleta, de terno. Ia para show de bicicleta, voltava de madrugada pedalando. Levava os cachorros para a praia.

Era uma vida que eu amava. E depois de tudo que a gente tinha passado para chegar ali, cada detalhe dela tinha um peso diferente.

Nosso escritório ficava num lugar chamado Ironside. Uma região de Miami com uma arquitetura que eu amo até hoje: eco-brutalista, industrial no meio de um monte de árvore. Era como se fosse um shopping aberto, com escritórios, lojas e restaurantes espalhados em volta de uma praça central. O nosso ficava ali, de frente para a praça, quase como uma vitrine.

A gente pintou todas as paredes de preto. Eu fiz instalações artísticas luminosas nos dois ambientes. Penduramos fotografias de trabalhos nossos. Como o escritório era quase uma vitrine para a praça, as pessoas passavam, olhavam pelo vidro e entravam perguntando se era uma galeria de arte. Ofereciam para comprar as instalações o tempo todo.

É uma coisa nossa. Não importa se é uma sala pequena alugada, um espaço enorme, uma casa ou um escritório. A gente não consegue estar num ambiente sem transformar ele. Sem colocar alma, sem se importar com cada detalhe. Foi mais um espaço que a gente transformou completamente e deu nosso coração. E eu acho que é essa paixão que é magnética. As pessoas olham de fora e querem, de alguma forma, fazer parte daquilo.

Tem uma coisa que acontece quando você constrói algo do zero, longe de casa, sem rede de apoio, sem dinheiro de família, sem indicação. Quando você olha para aquilo e sabe que cada detalhe existe porque você e seu parceiro fizeram existir. Não é arrogância. É uma confiança que vem de dentro, do acúmulo de tudo que você já enfrentou e resolveu. E naquele momento em Miami, com aquele escritório, com aquela vida, era exatamente assim que a gente se sentia.

A pergunta

Não foi uma conversa única, dessas de sentar com seriedade e planejar o futuro. A gente era jovem, era intenso, ia fazendo. Mas ao longo de vários dias, em várias conversas, a mesma pergunta foi aparecendo.

A memória que eu e o Lucas temos é a mesma: sentados na praça do Ironside, em frente à porta do escritório, comendo pizza da Ironside Pizza, tomando uma taça de vinho, vendo o pôr do sol em cima daquele varal de lâmpadas.

A gente estava, pela primeira vez na vida, com dinheiro de verdade no bolso. E a pergunta era simples: a gente compra uma casa, tem um filho, ou faz um filme?

Acho que diz muito sobre quem somos o fato de que a resposta veio sem hesitar. E a gente leva essas coisas a sério. Não foi rindo, não foi por impulso. Foi porque no fundo a gente já sabia. A casa podia esperar. O filho podia esperar. O filme, não. A gente já tinha esperado tempo demais.

Filme.

O filme viria a ser o Coração de Neon.

"Cadê o longa?"

Mas antes de colocar nosso dinheiro, a gente quis tentar o caminho que parecia mais inteligente: buscar investimento privado. Estávamos em Miami, cercados de empresários e investidores de todas as nacionalidades. A cidade é assim. Você toma café com um colombiano, almoça com uma americana e janta com um libanês. A gente começou a marcar reuniões. Cada uma parecia promissora. Cada conversa terminava com um sorriso e um "vamos falar mais sobre isso".

Se você já trabalhou com qualquer coisa que depende de convencer alguém a apostar dinheiro numa ideia, entretenimento, startup, projeto social, qualquer coisa, você conhece esse ciclo. A empolgação da reunião. O aperto de mão. A promessa. E depois, o silêncio.

Um dos investidores que conhecemos era o Boro. Um búlgaro que um dia passou na frente do nosso escritório, ficou curioso com o letreiro que dizia que ali era uma produtora de cinema, e entrou. Quis saber o que era. A gente começou a conversar. Depois vieram reuniões. Várias. Ele vinha do petróleo, tinha dinheiro, e as coisas pareciam estar avançando.

Até que numa dessas reuniões, sentados na Ironside Pizza, numa mesa perto da janela, ele parou e falou: "Tudo que eu vi até agora é muito lindo. Dá pra ver que vocês são extremamente talentosos. Mas eu vou perguntar: cadê o longa-metragem de vocês? Vocês têm um longa no portfólio?"

A gente sabia que a resposta era não.

Bateu como um raio direto no peito. Um daqueles choques de realidade que você não quer encarar, mas sabe que é verdade. Ninguém ia apostar em dois cineastas sem um longa no currículo. Essa barreira ia se repetir em toda reunião, com todo investidor, em todo pitch. E se repetiu.

Os sorrisos que amarelaram

A Soraya era uma amiga e investidora dominicana. Ia colocar 20 mil dólares no filme. Na reunião, a gente pediu 70. Burros, ansiosos, empolgados, imaturos. Ela não quis. Desistiu até dos 20. No fim, investiu 5 mil. Quase como uma doação, de bom coração. Nos Estados Unidos isso é comum: as pessoas apoiam porque acreditam em você, mesmo quando o negócio não faz sentido para elas.

Uma amiga dela disse que era captadora de recursos. Eu e o Lucas criamos um business plan de 60 páginas. Na unha. Pré-IA, tudo feito à mão, pesquisa por pesquisa, número por número. Ela adorou. Falou que ia apresentar para investidores. Passou uma semana, duas. Mais uma reunião, e outra, e outra. E nada. Quando as pessoas veem de perto o quão difícil é levantar dinheiro para filme, simplesmente desistem.

A gente vendia o discurso com paixão. Com fé genuína. A ideia era trazer a mentalidade da indústria americana de investimento privado para o cinema brasileiro. E as pessoas compravam, de tão comovente que sempre foi a nossa paixão por aquilo que fazemos. Tínhamos resposta para tudo. Saída para todos os problemas.

Mas na hora de assinar o cheque, ou no mundo atual, de fazer o PIX, as propostas iam caindo uma a uma. O telefone ficava mudo. As reuniões cancelavam. Os sorrisos amarelavam, enquanto os olhos fitavam os sapatos. Alguns davam desculpas. Muitos sumiam. Poucos tinham coragem de olhar nos nossos olhos e dizer: eu não acredito nesse modelo. De tão convincente e apaixonado que era o nosso discurso, as pessoas não conseguiam dizer não na nossa cara. Preferiam desaparecer.

A gente tentou com clientes, com contatos de fundações, com gente do Brasil, dos Estados Unidos. Abordamos deus e o mundo.

Até aquele momento, não tínhamos conseguido nada. Nem um centavo de investimento externo. Mais tarde, já durante a produção, viria algum apoio. Mas ali, na fase de convencer alguém a acreditar numa ideia, seed money, como chamam, estávamos sozinhos.

Então fizemos sozinhos

Eu tive medo. De verdade. Quando todo mundo diz não, uma parte de você começa a se perguntar se o problema é a ideia ou se é você.

O Lucas nunca pensou assim. Ele não entra em nada para dar errado. Preparar-se para rainy days não é o estilo dele. Especialmente naquela época, mais jovem, mais fogo, mais certeza. Para ele, a gente tinha um plano ousado. Ponto. O resto era execução.

E eu acho que é aí que a gente se complementa. Eu trago a cautela, as perguntas que precisam ser feitas. Ele traz a convicção que me empurra quando eu hesito. Juntos a gente funciona com mais força. Sempre foi assim.

A gente sempre achou que dinheiro a gente faz mais. E é engraçado dizer isso agora, sabendo o que veio depois. Mas naquele momento, era verdade. Era o que a gente sentia.

Então investimos sozinhos. Do nosso próprio bolso. Tudo que a gente tinha, mais o que esperava ganhar com os trabalhos já fechados para os meses seguintes. A conta fechava. Até o mundo parar. Mas isso é história para outro post.

Sem edital, sem lei de incentivo, sem investidor externo. Cinema de guerrilha no sentido mais literal da palavra.

A gente tinha uma mentalidade romântica e sonhadora. Achávamos que íamos mudar a indústria de entretenimento inteira do Brasil. Que íamos revolucionar. E vendíamos esse discurso com tanta paixão que a gente mesmo acreditava sem reservas.

E realmente revolucionamos. Mas não o Brasil todo.

Só nossas próprias vidas. Nossa carreira, do lado positivo. Nossa conta bancária, do lado negativo.

Toda a nossa história é marcada por feitos assim. Grandes. Aplaudidos. O tipo de coisa que choca quem está em volta. Mas o risco que a gente toma é proporcionalmente enorme. E isso ninguém vê de fora.

Esse foi o começo. O roteiro ainda precisava ser escrito, o elenco ainda precisava ser encontrado, e a gente ainda precisava cruzar uma fronteira de ônibus com uma câmera de cinema na mochila. Mas isso é história para o próximo post.

Voltando para o Brasil de mala e cuia (final de 2019).
Voltando para o Brasil de mala e cuia (final de 2019).