Quando a gente abriu o casting do Coração de Neon, não tinha um escritório de produção em Curitiba recebendo atores. A gente estava em Miami. O Lucas publicou chamadas nas redes sociais do IHC, pediu ajuda do Humberto Gomes, amigo de longa data e diretor de teatro que conhece a cena de atores em Curitiba, e esperou. Os testes chegavam por vídeo. Cada ator gravava com o celular, de casa, do quarto, da sala, do quintal.

O Lucas nunca buscou currículo. Nunca priorizou quem tinha mais experiência no currículo ou mais novela no portfólio. O que ele buscava era disponibilidade emocional. Gente disposta a confiar na visão dele e a se entregar por inteiro a um personagem. Ele sempre gostou de trabalhar com atores menos experientes, porque muitas vezes eles chegam mais crus, mais inteiros, sem vícios. Além disso, fazia questão de priorizar atores curitibanos e paranaenses. O filme era no Boqueirão. As pessoas que contariam essa história precisavam ter essa cidade no corpo.

Esse post é sobre como a gente montou o elenco inteiro de um longa-metragem dessa forma. Sem agência, sem banco de atores tradicional, sem nenhum nome famoso. Cada pessoa que entrou no filme entrou porque estava ali, disposta, no momento certo.

O vilão que pediu uma chance

O Wagner Jovanaci era uma figura conhecida em Curitiba. Ele tinha um personagem de rádio na Jovem Pan, a Wagná, uma drag queen que todo mundo conhecia na cidade. Além disso, o Wagner frequentava a Lage Chic, o projeto musical que a gente fazia no terraço do nosso estúdio de cinema. Ele aparecia, curtia, ficava, e toda vez falava a mesma coisa para o Lucas: um dia eu quero trabalhar com você. Um dia você vai me colocar no seu filme.

Quando a gente abriu o casting, o Wagner mandou mensagem no privado. Não esperou a chamada pública. Escreveu direto: Lucas, chegou a minha chance. Me manda o teste que você acha que combina com o meu perfil que eu vou dar o meu melhor.

O Lucas mandou o teste para o Gomes, o policial violento, corrupto, abusivo. Um personagem pesado. O tipo de papel que exige um ator disposto a ir para um lugar desconfortável e ficar lá.

O Wagner gravou o teste no bairro dele, em São Paulo. Era uma cena em que o Gomes invade a casa da ex-mulher, filmando, humilhando, gritando. O Wagner interpretou aquilo com tanta intensidade que vizinhos foram até a janela ver o que estava acontecendo. Ele contou depois que ficou com um pouco de vergonha e que poderia ter se soltado mais. Mas o que chegou já era excepcional. Não teve dúvida. Não precisou abrir para outros atores. O papel era dele.

Me arrepio de lembrar.

Depois, quando a produção começou a tomar forma, a gente comentou com a equipe que ainda precisava de alguém para cozinhar para o time durante as gravações. Numa produção de guerrilha, você não paga buffet nem restaurante todo dia. Você compra os insumos e contrata alguém por mês para cozinhar no set. O Wagner ouviu e falou: meu marido, Roberto, é cozinheiro de mão cheia. Ele está disposto.

O Roberto veio junto. A prima do Wagner, Marta, veio como assistente. Ficaram os dois na cozinha durante toda a produção. O Roberto acordava às três da manhã para preparar o café da equipe. Nunca tinha trabalhado num set de cinema. Se adaptou como se tivesse feito aquilo a vida inteira.

Como o Wagner estava vindo de São Paulo e já não morava mais em Curitiba, sugeriu ficar na casa que a gente tinha alugado como QG. O Lucas topou na hora. Era perfeito: a casa ficava viva, sempre com alguém ali. O Wagner e o Roberto se instalaram num quarto. Nos dias em que o Wagner não estava atuando, ficava ali, convivendo com a equipe. E o Roberto, sempre na cozinha.

O Wagner se entregou daquele jeito do primeiro teste até o último dia de gravação. Não oscilou.

O pai que não era para ser pai

O Paulo Matos fez o teste para o Tatau, um morador de rua alcoólatra. A princípio, o Laudércio, o pai do Fernando, seria interpretado por um ator mais conhecido. O acordo parecia encaminhado.

O teste do Paulo chegou e a gente amou. Ele entregou uma emoção no olhar que era difícil de ignorar. Mas o Lau já tinha dono, então seguimos.

Até que o Lucas começou a conversar mais com o Paulo e foi descobrindo semelhanças entre ele e o Laudércio que iam além da atuação. O Paulo é poeta. Toca violão. Tem um olhar romântico para a vida, uma sensibilidade que parece vir do mesmo lugar de onde vem o Lau. A pulga atrás da orelha começou a crescer.

E aí o ator que supostamente faria o Lau começou a se enrolar. Se enrolar para ler o roteiro, desfazendo um pouco do projeto, sem enxergar a oportunidade. A gente olhou um para o outro e falou: é um sinal. O Paulo é o Lau. Ele já quer, é um ator excelente, está disposto a se jogar, e é curitibano. Chamamos ele.

Foi uma das melhores decisões do filme.

O melhor amigo que quase não veio

O Dinho era um personagem central. O melhor amigo do Fernando. Uma das químicas mais bonitas do filme, talvez até mais do que o par romântico. O Dinho é aquele personagem que traz alívio cômico para a densidade do protagonista, que funciona como a consciência do Fernando nos momentos em que ele está prestes a fazer besteira. É um equilíbrio delicado.

A gente queria um ator negro para o papel. Curitiba tem uma população majoritariamente branca, e quando você abre um casting sem especificar perfil, o elenco tende a ficar homogêneo.

O Humberto indicou o Wawa Black. O Wawa só tinha atuado em publicidade até então. Tinha 23 anos. Quando o teste dele chegou, a gente viu que ele era lindo em vídeo, tinha um carisma natural e, apesar da inexperiencia, soava verdadeiro. Cru, mas inteiro.

Na época, o Wawa estava morando em Boston. A gente estava em Miami. Por coincidência, tínhamos um trabalho em Boston. O Lucas mandou mensagem: vi teu teste, gostei, quero te encontrar pessoalmente para a gente trocar uma ideia.

O Wawa demorou para responder. Achou que o Lucas estava dando em cima dele. Um diretor mandando mensagem no privado dizendo que quer se encontrar. O Lucas percebeu e completou: estou indo a trabalho com a minha esposa, que é minha sócia.

Aí relaxou.

Por coincidência, a viagem caiu no aniversário do Lucas. A gente convidou o Wawa para jantar. Ele foi. Então ali estávamos: comemorando os 28 anos do Lucas num restaurante em Boston com um cara que a gente mal conhecia, que tinha mandado um teste pelo celular, que morava em outro estado.

O carisma que ele tinha mostrado no vídeo, ele tinha na vida real. Um sorriso que ilumina qualquer ambiente. Uma energia que te faz querer ficar perto. O Wawa já era o Dinho antes de saber.

A troca que salvou o filme

A Andressa, par romântico do Fernando, foi a escalação mais complicada do filme.

A primeira atriz escalada veio por meio de uma troca de serviços. O marido dela, um colorista experiente, faria a cor do filme. Em troca, ela ficaria com o papel. O Lucas aceitou. O teste dela tinha sido bom, o perfil físico funcionava, e ter a cor do filme garantida era um alívio enorme para o orçamento.

Ela veio para Curitiba. E começou a dar errado.

Não conseguia tirar o sotaque. O curitibano dela soava caricato. O Lucas dava exercícios de vivência, pedia para ela dar rolê pelo bairro, conversar com as pessoas, absorver o ritmo do lugar. Ela não fazia. A convivência no set foi ficando difícil. A gente foi tentando, ajustando, insistindo, até que não deu mais.

Eu, como produtora, tomei a decisão. Liguei e disse que não precisava mais voltar.

Não foi fácil. Mas era o filme.

Acontece que, lá atrás, quando a gente já tinha decidido pela primeira atriz, recebemos o teste da Ana de Ferro. E a gente ficou de queixo caído. O rosto, a entrega, a naturalidade. Mas o papel já estava fechado. Guardamos o nome dela.

Quando tudo desandou, a primeira pessoa que me veio à cabeça foi a Ana. Por sorte, ela ainda estava disponível. Ficou radiante com o convite. Entrou já com a pré-produção avançada, teve poucas semanas de ensaio, e se entregou 100% ao papel. Era curitibana, então o sotaque não era problema. E a naturalidade que a gente tinha visto no teste, ela trouxe para todas as cenas.

O acordo da cor caiu junto com a atriz. Então durante a pandemia, enquanto o filme esperava a pós-produção, eu me dediquei para estudar do zero e me profissionalizar em color grading. Me tornei colorista. Fiz a cor do filme inteiro.

Fernando

O Fernando sempre seria o Lucas. Isso nunca esteve em discussão. Ele estava escrevendo o filme, dirigindo o filme, e ia viver o protagonista. Era a porta que ele mesmo estava construindo, e não fazia sentido não passar por ela.

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Lucas se preparando para viver o Fernando e muitos ensaios.

Só que o Fernando tinha vinte e poucos anos e o Lucas já estava com vinte e oito. Para fechar essa distância, ele entrou num processo de transformação física que começou junto com o roteiro e durou mais de um ano. Emagreceu. Deixou o cabelo crescer até o ombro para receber mega hair. Mandou fazer um aparelho ortodôntico removível. Cada detalhe pensado para dar ao personagem esse ar de menino meio bobo, meio inocente.

Deu certo a ponto de, nas premières, as pessoas perguntarem para ele, como diretor, quando o ator do protagonista ia chegar. Não faziam ideia de que era a mesma pessoa.

Todos os outros

Muita gente entrou no filme pelo casting aberto, sem conhecer ninguém. Cili Nandes, William Barbier, Wenry Bueno, Fabiane Gouvêa, Juliana Biancato, Luiz Barotto. Mandaram seus testes quando a chamada saiu, foram selecionados, e entregaram. Para ver como todo mundo tem chance quando o projeto é real. Fique esperto, siga o IHC, porque você nunca sabe quando a sua chance pode chegar.

O Wenry, por exemplo, tinha feito teste para o Dinho. Era bom. Mas o Wawa já estava no papel. A gente queria o Wenry no filme de qualquer jeito, e ele arrasou como Adriano, o segurança da rua.

A Juliana Biancato estava tão disposta a participar que se ofereceu para trabalhar como equipe também, além de atuar. E era Boquera. Perfeito.

A soldado Kelly entrou pelo apoio da Polícia Militar do Paraná. O Gomes era para ter um parceiro homem, um ator. Esse ator começou a dar problema, e a gente precisou cortar. Através do apoio da PM, conhecemos a soldado Kelly Suzana, que interpretou ela mesma. Mandou muito bem.

A dona Etty Nandes, que fez a dona Ana, tinha atuado num curta meu da faculdade, anos antes. Uma atriz profissional que topou fazer o filme de uma estudante. A memória daquela experiência ficou tão boa que, quando vi que tínhamos um papel para uma senhora de 70 e poucos anos, liguei para ela. Ela veio. E a filha dela, Cili, fez a Déia. Uma personagem pesada, difícil, que exigia muita coragem emocional. A Cili carregava gatilhos pessoais que tornavam aquele papel ainda mais intenso. Ela se entregou.

O Luthero de Almeida, que fez o Zico, veio por indicação do Humberto Gomes. Não tínhamos recebido testes de homens acima de 75 anos. O Humberto conhecia ele e indicou.

A Laura, que fez a Vitória, é filha do PA, artista amigo do Lucas de longa data. O PA é dupla do PH, gêmeos do rap, talentosíssimos. Os dois fizeram duas trilhas para o filme. E a Laura, tão nova, provavelmente já está no mesmo caminho.

O Humberto Gomes fez uma participação especial como a Capivara, no final do filme. Foi mais uma homenagem a um grande ator e amigo querido do que um papel tradicional.

Três atores gravaram seus personagens e acabaram cortados na versão final do filme. Isso acontece. É parte do cinema. Você ensaia, grava, se entrega, e às vezes na ilha de edição aquele personagem simplesmente não cabe mais na história. Não é sobre a qualidade do ator. É sobre o filme que vai se revelando no processo.

Eu olho para o elenco do Coração de Neon e penso em como cada pessoa chegou ali. Ninguém veio por agência. Ninguém veio porque era famoso. O Wagner veio porque pediu. O Paulo veio porque o universo embaralhou os papéis. O Wawa veio porque mandou um teste pelo celular e aceitou jantar com dois desconhecidos em Boston. A Ana veio porque a primeira escolha deu errado. A Kelly veio porque era policial de verdade. A dona Etty veio porque uma memória de faculdade ficou guardada.

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Momentos de ensaio do elenco.

Quando um projeto é feito com paixão, quem aparece é quem é para aparecer. Pessoas que entregam corpo e alma, que confiam no processo antes de ver o resultado, que constroem junto uma energia que você não consegue fabricar. Isso vale para cinema. E vale para qualquer coisa que você faça de verdade.

Um brinde ao querido elenco de Coração de Neon.
Um brinde ao querido elenco de Coração de Neon.