O início da pré-produção do Coração de Neon

Este post contém spoilers do filme Coração de Neon.

O Coração de Neon foi filmado num raio de duas quadras.

Duas quadras no Boqueirão, em Curitiba, nas ruas onde o Lucas cresceu. As casas dos personagens eram casas reais de amigos reais. Alugadas por um preço camarada, porque os donos sabiam o que a gente estava fazendo e queriam fazer parte.

A casa do protagonista Fernando era a casa do Tiaguinho, amigo de infância do Lucas. Uma casinha de madeira, simples. Quando o Lucas era criança, ali funcionava uma sorveteria. Do Tiaguinho. Então eles estavam sempre por ali, tomando sorvete, dando rolê. O Tiaguinho não trabalhou no filme, mas a casa dele estava lá. A memória dele estava dentro daquelas paredes.

A casa da Andressa, o par romântico do Fernando, era a casa do Boi, apelido do Rogério, outro amigo do bairro. Na frente, na esquina, ficava a casa onde o Lucas cresceu, onde os pais dele ainda moram. E do lado, tinha outra: a do melhor amigo de infância dele, que também se chamava Lucas. Eles pulavam o muro, subiam no telhado para pular na piscina. Coisa de piá.

Essa casa estava vazia, à venda. Eu entrei em contato com a Dona Neca, mãe do Lucas, e aluguei para ser o nosso QG. Base de tudo: ensaios, reuniões, depósito de equipamento, centro de operações. Ali dentro, o Wagner Jovanaci, ator que interpretou o vilão Gomes no filme, e o marido dele, o Roberto, montaram um quarto e ficaram morando durante toda a produção. Mas essa história fica para outro post.

Tudo ali. Tudo naquele pedaço de rua.

E aqui vem algo que eu só entendi depois.

Em 2020, a casa do Tiaguinho foi demolida. O Boi saiu da casa dele por problemas pessoais, e hoje não tem mais ninguém ali. A casa do QG foi vendida, reformada, mudou completamente. Três casas que aparecem no Coração de Neon já não existem mais como eram.

Parece que a gente capturou o último suspiro de vida daquelas casas. Elas ainda guardavam uma história antiga, uma memória do bairro. E acabou logo depois que a gente filmou. O filme, sem querer, virou registro de um lugar que estava se dissolvendo.

A Gangue do Caminhãozinho

O Miltão, pai do Lucas, tem uma marmoraria butique que divide espaço com a casa dele. Empresa pequena, artesanal, onde trabalha com um irmão. O Miltão é um cara criativo, artístico, e sempre apoiou o Lucas em tudo.

Para o filme, disponibilizou o caminhão que usa para trabalhar, para entregar os trabalhos de mármore nas casas dos clientes. Deixou de usar durante toda a produção para a gente transformar em câmera car, levar equipe, transportar tudo que precisava ir de um canto a outro.

Esse caminhão tem história.

Quando o Lucas tinha 16 anos, pegava o caminhão do pai escondido para dar rolê pelo bairro. Histórias engraçadas, inusitadas, coisa de juventude. Em 2012, quando fez um clipe para o rapper Pezão, o Miltão já tinha assumido a mesma missão: emprestou o caminhão e dirigiu ele mesmo.

Os meninos que trabalharam naquele clipe se autodenominaram a Gangue do Caminhãozinho: Lucas, Edu Ribeiro, Microchip, Fly (o Ícaro) e Tiaguinho.

Quase todos voltaram para o Coração de Neon em 2019. Sete anos depois. A mesma turma, o mesmo caminhão, o mesmo bairro. O Tiaguinho hoje trabalha em outra área, então não estava na equipe, mas a casa dele estava no filme. De um jeito ou de outro, cada um deles estava presente.

Sete anos é bastante tempo. As pessoas mudam, a vida leva cada um para um canto. Mas quando a gente ligou para montar a equipe, todo mundo topou. Sem pensar duas vezes. Acho que quando você constrói algo junto, fica um fio invisível conectando as pessoas. E basta puxar que todo mundo volta.

Dois núcleos, uma máquina

A pré-produção se dividiu naturalmente em dois blocos. Eu liderando um, o Lucas liderando o outro. De forma engraçada, ficou quase como clube da Luluzinha e clube do Bolinha. Pelo menos na pré-produção. Na produção se misturou, mas ali ainda estava bem separado.

Eu cuidava de tudo que era produção: burocrático, contratual, organizacional, agenda, logística. Assumi também o departamento de arte e a função de assistente de direção, cuidando de todas as ordens do dia, porque já tinha coisa demais para o diretor de fotografia e alguém precisava pegar essa frente.

Trabalhei direto com a Mari, diretora de arte, responsável por arte e figurino, e com a Juliana Biancato como assistente. Porque em cinema de guerrilha todo mundo faz mais de uma coisa.

Uma das frentes mais importantes do meu trabalho foi conquistar apoios. Polícia Militar, URBS, ônibus, locações grandes. Essa história merece um post inteiro, e vai ter. Mas é importante dizer que sem esses apoios o filme simplesmente não existiria do jeito que existe.

E tinha o trabalho miúdo que ninguém vê, mas que aparece na tela: produção de objeto. A Mari listava cada item de cada cena. Tudo numerado, catalogado. Eu ajudava a descolar tudo. Cada objeto na tela estava ali por um motivo.

O núcleo do Lucas era direção e fotografia. Ele com o Edu Ribeiro como diretor de fotografia e o Fly como best boy. O Microchip no som direto, mas ajudando os meninos em tudo durante a pré-produção. O Wev no making of, também dando suporte. E o Tidão, amigo de infância do Lucas, também do Boqueirão, como foquista e assistente de câmera.

O Tidão era totalmente iniciante. Esse foi o primeiro trabalho sério dele no audiovisual, e logo depois do Coração de Neon ele abriu a própria produtora.

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Construindo a maquinaria.

A correria deles: montar equipamentos, construir luzes e maquinaria (muita coisa personalizada, feita na mão, com ajuda do Miltão que levava os meninos no serralheiro para conseguir peças), testar o caminhãozinho como câmera car, e montar o shooting board que já servia como ensaio.

Todo mundo no mesmo bairro, cada um na sua correria, e o caminhãozinho indo e voltando entre uma casa e outra carregando peça, equipamento, gente.

100 ensaios e o produtor invisível

A gente teve 100 ensaios. Eu agendei todos.

O Lucas é exigente com ensaio. A equipe era experiente, muita gente com mais de uma década de estrada, mas estreante em longa-metragem. Era o primeiro filme de todo mundo como cabeça de departamento nesse formato.

E no elenco mesma coisa, alguns atores muito experientes, mas também alguns não-atores compunham o cast diverso.

O Lucas tem uma crítica forte ao cinema nacional nesse ponto: falta de ensaio compromete o resultado. O Coração de Neon teve um resultado técnico muito elogiado, e isso veio da preparação.

Os ensaios se dividiam em núcleos. O principal, dos protagonistas, ficava com o Lucas. O secundário, dos atores de apoio, ficava com o Paulo Matos, que fez o Lau, pai do Fernando no filme. O Paulo é calmo, experiente, o tipo de presença que deixa os outros tranquilos. O Lucas passava pelo núcleo B, checava, voltava para o A. Cada sessão de shooting board já virava ensaio, marcação, prova de figurino, teste de maquiagem e cabelo. Se o momento existia, a gente encaixava tudo ali. Tempo era luxo e a gente não desperdiçava nenhum.

Eu olho para essa dinâmica e penso numa coisa que talvez só quem já coordenou algo grande com poucos recursos entenda. O produtor é invisível. O diretor dirige a cena, a visão, os atores. É o rosto do filme. Mas o produtor dirige a máquina. Todo o resto. O produtor é o motor e o óleo que faz tudo girar. E ninguém vê.

Qualquer pessoa que já foi a engrenagem silenciosa de um projeto sabe exatamente como é isso. O trabalho que sustenta tudo, que ninguém nota quando está funcionando, mas que todo mundo sente quando para.

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Um pouquinho das dezenas de ensaios.

O Boquelove, o Ricardo e os R$6.000

O carro do filme, carinhosamente chamado de Boquelove (mistura de Boqueirão com Love, porque é um carro de telemensagem), a gente achou nos classificados. Ainda lá de Miami, pedi para o Jeff, amigo de infância do Lucas e também do Boqueirão, que trabalhava na pré-produção, ir ver e testar. Um Ford Corcel Luxo azul, 1975. Cheio de problema, mas custou R$6.000. Compramos na hora.

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Para transformar ele no Boquelove que aparece no filme, a Mari desenhou todo o visual: luzes, elementos, adesivagem. E a gente encontrou um mecânico no bairro mesmo, o Ricardo, que cuidou de toda a parte elétrica, mecânica e adaptações. O carro praticamente morou na oficina dele. A gente pagava os materiais e ele apoiava com a mão de obra. Tudo foi sendo construído assim. Cada pessoa do bairro encaixando uma peça na engrenagem.

Como era um carro de empresa fictícia de telemensagem, precisava parecer real. Obviamente tinha que ter um telefone de contato para ser contratado. A gente colocou o telefone verdadeiro do Thiago Soriano, amigo de infância do Lucas, só para trollar ele.

Pessoas ligavam de verdade pedindo para contratar as mensagens.

A bazuca de candela

Uma das cenas mais marcantes do filme é a que o Fernando, o Dinho e a Andressa atiram fogos de artifício no segurança da rua. Essa cena nasceu de um vídeo que virou meme: um italiano numa bicicleta atirando fogos num motoboy, xingando em italiano enquanto posicionava quase bombas na frente da bicicleta. O motoboy se jogou para o lado, caiu na grama. Não era exatamente uma agressão, mas era violento e engraçado ao mesmo tempo. Eu e o Lucas assistíamos esse vídeo e a gente chorava de rir.

O Lucas se apaixonou pela ideia e quis colocar no filme. Como ele gosta de realismo e a pós-produção digital ia custar caro com risco de ficar tosca, a decisão foi fazer de verdade. Filmar fogos reais. A missão virou encontrar um fogo de artifício que fosse visual, explosivo, colorido, mas que não machucasse ninguém.

Eu fui em todas as casas de fogos de artifício da cidade até encontrar um que se chama candela. O tal do fogo frio. Fino, quase como um canudo. Lindo, brilhante. Não vou dizer que é 100% seguro, porque todo fogo de artifício tem risco. Sai faísca, faz buraquinho na roupa onde pega. Mas quando atinge a pele, não chega a queimar de verdade.

A Mari criou um tubo com cano de PVC, montou uma espécie de colmeia por dentro para encaixar vários candelas ao mesmo tempo. Quando o personagem passava o isqueiro, acendia tudo de uma vez. Aquilo se tornava quase uma bazuca de fogos de artifício. O resultado está na tela e virou uma das cenas mais icônicas do Coração de Neon.

Mas antes de filmar, a gente precisava testar. Testar de verdade. Atirando em alguém. E não ia ser nos atores. Então escalamos o Thiago Soriano de novo, o mesmo do telefone. Ele foi lá à noite, no bairro, sentou em cima da moto dele de capacete, e a gente ficou atirando fogos na cabeça dele.

Ele nem ligou. Adorou fazer parte.

O Thiago também emprestou a moto para o filme. Deixou de ir para o trabalho com ela durante um mês para a gente adesivar e usar nas cenas do segurança da rua, o personagem Adriano. Em homenagem, a empresa fictícia de segurança do Adriano se chama Soriano Seg.

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Os problemas no carro, e os tiros no Thiago.

O Thiago Soriano. O Ricardo mecânico. O Miltão com o caminhão. A mãe do amigo que alugou a casa. O Tiaguinho que não estava lá, mas cuja casa contou a história. Cada pessoa encaixou uma peça. Cada esquina deu um pedaço. A gente voltou de Miami para fazer um filme, e o filme saiu do chão onde o Lucas cresceu. Das mesmas ruas, das mesmas pessoas, das mesmas esquinas.

Algumas dessas esquinas já mudaram. Algumas dessas casas já não existem.

Mas no filme, elas ainda estão lá.