Antes de gravar
Como a gente se preparou para algo que nunca tinha feito
Este post contém spoilers do filme Coração de Neon. Se você ainda não assistiu, recomendamos assistir antes de ler.
O Coração de Neon foi o nosso primeiro longa-metragem. Mas a gente não estava começando do zero. Já tinha rodado o mundo com uma câmera, já tinha feito clipes, curtas, conteúdo para marcas. A estrada existia. O que não existia era precedente para o tamanho do que a gente estava tentando fazer: um filme financiado inteiramente do nosso bolso, com uma equipe formada quase toda por estreantes, tentando provar que dava para fazer cinema no Brasil de um jeito que ninguém estava fazendo.
A pré-produção foi onde essa aposta começou a ganhar forma. Cada decisão, cada teste, cada ensaio era uma tentativa de chegar no primeiro dia de gravação com o máximo de respostas e o mínimo de surpresas.
Distribuindo as primeiras camisetas para equipe e elenco
Vestindo a camisa
A primeira coisa que a gente fez quando a equipe estava formada foi mandar fazer camisetas e bonés com a logo do IHC.




Pode parecer detalhe. Mas no primeiro encontro geral, quando todo mundo vestiu a sua, a energia mudou. A galera ficou feliz, empolgada. Tinha um senso de pertencimento ali que não precisava ser explicado. No IHC a gente sempre fez isso, em todos os projetos. É um ritual nosso. E nas imagens de bastidores, essa unidade aparece.
Foi ali que um grupo de pessoas virou uma equipe.
Leitura de roteiro e grito de guerra no estúdio.
O estúdio
Uma parte importante da pré-produção foram os dias no Estúdio Elephant, do Thiago Machoski, no Uberaba. As composições ficavam com o Jotta Valiente, multi-instrumentista e amigo de longa data. O Lucas compunha as letras, o Jotta a melodia. Os dois juntos trabalham numa sintonia muito boa.
Lucas e Jotta gravando trilha sonora.
Vou ser sincera: eu acho estúdio de música um saco. O Lucas adora. Para ele, aquilo é o paraíso. Para mim, são horas ali dentro sem ver o dia passar, e quando você percebe já é noite, você está morrendo de fome e alguém pede uma pizza porque ninguém lembrou de comer. Para quem não está cantando, tocando ou na mesa de som, para quem está ali só acompanhando, e analisando o resultado, é maçante.
E dá-lhe mais momentos no estúdio.
Mas era um momento fundamental para a pré-produção. O Fernando toca violão no filme, e o Lucas aprendeu a tocar para o papel. E o Lucas não tem medo de (quase) nada. Ele é muito seguro no que ele faz. Dirigir para ele, é igual respirar. Atuar, é natural como andar para a frente. Cantar é pouco mais desafiador, mas ainda assim, é algo que ele já faz há anos, então vai bem também. Agora tocar violão, minha gente? Esse era o ponto de insegurança dele! E ele queria fazer perfeito. Mas para quem aprendeu um instrumento (sozinho! com vídeos de YouTube) há menos de um ano, não é nada fácil. Então cada sessão no estúdio era também um ensaio, uma chance de ganhar segurança com o instrumento antes de ter que tocar em cena.






E estar no estúdio de um amigo fazia diferença. A gente já tinha feito mil coisas lá, sempre com as mesmas pessoas. Tinha uma sensação de casa. A gente convocava a própria equipe para gravar os coros, fazer backing vocal, canto de torcida. Foi lá também que gravamos o jingle do Boquelove com a voz do Paulo Matos (personagem do Lau). E o que era chato para mim acabava virando divertido, por estar junto com o pessoal, e também por ver os resultados que sempre me surpreendem positivamente.
Gravando o jingle com o Paulo
Melhor que isso só o personagem da capivara, cuja fantasia foi vestida por praticamente todos os membros da equipe e do elenco. Era só alguém estar ali dando bobeira por dez minutos que o Lucas já mandava vestir a fantasia para marcar cena no shooting board. Está descansando? Tudo bem, mas descanse dentro da fantasia de capivara.











Preparação obsessiva
A diversão do estúdio e dos ensaios era real. O violão estava sempre por perto, e entre uma leitura de roteiro e outra alguém pegava, começava a tocar, e quando você percebia estava todo mundo cantando. Esse clima atravessava tudo.
Mas por baixo da leveza, a preparação era obsessiva.







A gente visitou cada locação do filme. Todas. Posição do sol, barulho da rua, quantas pessoas da equipe precisariam ir, se faltava luz. No aeroporto, eu tinha autorização, mas não podia fechar o espaço, então planejamos equipe reduzida. As cenas com arma foram ensaiadas com arma de brinquedo. A briga de torcida foi ensaiada num campinho com figurantes misturados a membros reais da torcida do XVI da Villa. Ensaiar figurantes é algo que quase ninguém faz numa produção independente. A gente fez. E na tela, a diferença aparece.
O vidro foi outro capítulo. Uma das cenas mais marcantes do filme é quando o segurança quebra o vidro frontal do carro com o capacete. A gente queria fazer de verdade. Consegui o apoio da Vidrama Vidros Automotivos, do Renan Piva. O Renan deu vários vidros para a gente poder quebrar e testar, vendo como o material se comportava com diferentes impactos. A equipe dele trocava os vidros entre os testes. Levamos fogos de artifício para testar junto. No meio de um ensaio, o Wawá Black cortou a mão. Nada grave. Mas ali tive mais um medo desbloqueado. Alguém poderia se machucar? Quão seguras são essas cenas de ação que estamos fazendo? Socorro, alguém salva essa equipe de malucos!
Quebrando tudo no ensaio! (e vidro)
Quando a estrutura quebra
Pouco antes de começar as gravações, a equipe terceirizada que ficaria responsável por toda a maquinária cancelou. Pegaram um projeto maior, que pagava mais, e simplesmente comunicaram que não fariam o filme.
Eu estava em outro núcleo quando aconteceu. Quem recebeu a notícia foi o Lucas. E quem conhece o Lucas sabe: ele ficou ensandecido. Para ele, aquilo foi uma traição. A gente tinha planejado em cima daquela estrutura, contado com aquelas pessoas. E do nada, ficamos na mão.
Mas durou pouco. Porque ninguém ia abalar a nossa equipe. Parece que quanto maior o desafio, maior a garra de fazer dar certo.
O Miltão, pai do Lucas, levou o Edu, nosso diretor de fotografia, e o Ícaro, nosso best boy, até um amigo serralheiro. E os três construíram toda a maquinária do filme do zero. Apoio de câmera, suporte de luz, tudo artesanal, tudo funcional. Construíram inclusive o car rig no próprio caminhãozinho do Miltão: uma plataforma na frente do caminhão onde o diretor de fotografia e o áudio ficavam posicionados enquanto o caminhão andava, seguindo o carro, filmando em movimento.
Essa solução, feita com as próprias mãos, funcionou durante o filme inteiro. E o orgulho que o Lucas sentiu da equipe ali foi do tamanho da raiva que ele sentiu do cancelamento.
Nossa equipe mostrando que quem sabe, faz ao vivo! A Maquinaria nascendo.
Véspera
Nessa fase final da pré-produção eu estava posando temporariamente na casa dos meus sogros, que ficava ao lado do QG e na mesma quadra das locações do filme. Acordava ali, trabalhava ali, dormia ali. O filme estava em todas as direções. Não tinha nenhum momento em que o projeto sumisse do campo de visão.
Era tudo tão corrido que não dava tempo de sentir. Meus medos eram práticos: a grana, os apoios que ainda não tinham fechado, o risco de ter que improvisar em cenas que precisavam de precisão. Eu já tinha plano B para quase tudo. Mas plano B nunca é tão bom quanto o plano A, e eu sabia disso.
A última reunião de pré-produção teve um clima diferente. Coração batendo forte. Um misto de medo e vontade que eu não sei separar até hoje. No dia seguinte, essa equipe faria sua estreia como time.
Dei um dia de folga para todo mundo. A ideia era descansar, dormir bem, recarregar.
Ninguém conseguiu.
Eu ficava olhando minhas planilhas buscando mais algum detalhe para ajeitar, mais alguma coisa que pudesse ter escapado. Era o nervosismo de quem está na coxia de um teatro esperando para entrar no palco. Será que vai dar branco? Será que vou tropeçar bem na entrada?
Eu sabia que algo ia acontecer. Sempre acontece. A pergunta que não me deixava dormir era outra: será que eu me preparei, e preparei minha equipe, bem o suficiente para lidar com o que viesse?
A última reunião antes da loucura começar.